Em meados de 1968, o Gil de Vilhena, a quem a Mariquinhas espiritualmente recorreu a fim de continuar exprimindo sua benquista alma, descobriu na Sé o sítio ideal para remontar a famosa Casa com janelas de tabuínhas. De um esconso pardieiro em local mal afamado, após algumas obras, geniais improvisos e peripécias, conseguiu abrir um excelente retiro fadista, que desde logo concitou o interesse e os aplausos dos aficionados do Porto e de Lisboa.

O Pavão era o porteiro, o Fernando Teodoro e o Alfredo Guedes cantavam e serviam às mesas. À guitarra e à viola estavam Manuel dos Santos e Manuel Carvalho. Eu, num bem situado cantinho, tinha uma pequena mesa reservada para beber uns copos e escrever. Ao dealbar de 1969, após uma agradável festa de despedida, fui trabalhar para Moçambique. No que a seguir se passou, só sou pois tido e achado, porque fui eu que escrevi os versos para o Nuno de Aguiar, na Candeia da rua do Almada, em 1967.

OLHAI A NOITE

Naquela época o Toni vinha frequentemente ao Porto, sua terra natal, para fazer Revista no Teatro Sá da Bandeira. No fim da sessões nocturnas, por volta da meia-noite e pico, ia cear à Casa da Mariquinhas. Numa dada altura, ouviu o Alfredo Guedes, dessa feita acompanhado pelo Álvaro Martins, que era o autor da música, interpretar o "Olhai a Noite" e de imediato decidiu incluir a composição no seu repertório. Convidou por isso o Álvaro e o Guedes para irem no outro dia ao Hotel da Batalha, onde estava alojado, para estes lhe passarem a totalidade dos elementos num gravador. Meses adiante, na revista "Pega de Caras", num quadro alusivo à vida nocturna, interpretou, como só ele sabia e era capaz, a nostálgica cantiga. A partir daí o desiderado espalhou-se por todas as vozes do fado e expandiu-se de lés a lés. Quando regressei de Moçambique, em 1975, todos os retiros tinham em cartaz o "Olhai a Noite".

Olhai a noite,
Vêde as sombras dessas ruas,
Saudades
Que martirizam, que matam..
.Olhai a noite,
Refúgio das almas nuas,
Verdades
Que muitos sequer as notam.

Olhai a noite
Dessas longas madrugadas,
Fadistas
À procura de um destino...
Olhai a noite,
Ermo imenso desses nadas,
Fatalistas
Vagueando em desatino.

Não passo bem a noite sem um fado,
Não passo bem a noite sem beber,
Não passo bem a noite abandonado,
Não passo bem a noite sem beber...


Quem nesta data, Abril de 2006, solicite num buscador internético o nome de Toni de Matos, obterá apenas poucas, ligeiras e muito compactas referências. No entanto, em português, tratou-se de um dos maiores cantores românticos de todos os tempos. O seu estilo, apaixonadamente arrebatador, fazia mexer de inquietação os corações portugueses da época.

O seu derradeiro grande espectáculo, teve lugar no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no mês de Novembro de 1985. Da gravação que na altura se efectuou, felizmente, recuperou-se agora a fita magnética para produzir um DVD que acaba de ser apresentado ao público. Passo a transcrever a notícia tal e qual a recolhi da página 41 do Jornal de Notícias de 17 de Abril de 2006. O Toni faleceu em 8 de Junho de 1989, tinha 65 anos, no Hospital de Santa Maria, vitimado por doença incurável.

O espectáculo, que foi exclusivamente idealizado para Toni de Matos após sua morte, expõe o intérprete em plena revisão dos seus poderes vocais, percorrendo "hits" de uma carreira que atingiu diversos picos entre os anos 60 e 80, com destaque para "Vendaval", "De homem para homem", "O destino marca a hora" ou o clássico intemporal "Só nós dois".

Carlos Seixas, que foi o produtor musical de Toni nos últimos 25 anos e que supervisionou a direcção artística do concerto, incluindo a orquestra dirigida por Shegundo Galarza, recordou à agência Lusa o momento. "Foi um espectáculo electrizante, com uma plateia em apoteose. Ele tinha de facto um dom especial: tocava as pessoas pela sua entrega absoluta e essa energia cativava toda a gente". Por outro lado o espectáculo deixa perceber que a sua imagem de cantor romântico, mais do que uma interpretação realista, correspondia à realidade do cantor. "Aquilo que ele cantava no palco era, em boa parte, a sua própria vida", confirma o produtor. Uma atribulada vida sentimental.

Toni de Matos, que na década de 60 se afirmou como uma das vozes mais populares do país (logo após Amália, era o artista que mais vendia), foi aquilo que Portugal teve de mais intenso na representação masculina do romântico. Foi filho óbvio de Aznavour e de Sinatra, capaz de justapor entoação e intenção, libertando um timbre inevitável, capaz mesmo de preciosismos, como fazer "roubadinhos" sem sair da frase musical.

Toni de Matos nasceu no Porto, viveu a infância na Companhia Desmontável de Teatro Rafael de Oliveira e, ainda jovem, fez sucesso num clube portuense interpretando "Cartas de amor". Em 1945 estreou-se aos microfones da Emissora Nacional. Três anos mais tarde, por intermédio do fadista Júlio Peres, sobe ao palco do reputado Café Luso, em Lisboa. Em 1950 grava o primeiro disco, em Madrid. Dois anos depois é declardo atracção nacional no teatro de revista.

Ainda nessa década percorre Angola e Brasil, onde regressa em 1957 para se fixar durante seis anos a cantar. Em 1962, "Só nós dois" chega às rádios portuguesas e torna-se num estrondoso êxito. Na década de 80, investiu no circuíto da emigração e actuou nas mais diversas e importantes casas de fado.

O Toni, em convívio com amigos e em disposição especial, era divinalmente exímio a interpretar fado castiço, o dito fado-fado, com rebuscado primor tradicional e rigorosamente fadista. Conheci-o pessoalmente em fins de 1981, no "Malcozinhado", na Foz do Douro. Foi memorável o momento em que interpretou o fado com poema de David Mourão Ferreira e música de Alan Oulman, "Abandono". Pela primeira vez ao vivo, face a face e defronte à mesa onde eu estava, quiçá para me demonstrar como tratava a minha obra, deliciou-me com o "Olhai a Noite". Desde aí, ficamos aparazíveis amigos. Sempre que vinha ao Porto, marcava comigo encontro para que eu partilhasse as suas magníficas noites fadistas. O Toni era uma companhia emocionante e vigorosamente propulsora. Era deveras um tenaz e empolgante vendaval. O vendaval passou e, em lugar do "nada mais resta", pelo menos em mim, ficou saudosamente a sua inconfundível voz.